14 June, 2009

Impressões - Peça Teatral - Homens de Papel, de Plínio Marcos

Peça: Homens de Papel (duração: 70 minutos)

De: Plínio Marcos – por Grupo Chão de Teatro 

Atores: 11 atores – Almir Miscolcz (Jiló), Angelina Ribeiro (Nhanha), Bruna Aragão (Maria-Vai), Daniele Brandão (Noca), Dênete Reis (Tião), Diego Campagnolli (Coco), Fábio Pasta/Carlos Landucci (Berrão), Fernanda Assef (Gá), Lécio Rabello (Frido), Thiago Barros (Chicão), Uidi Madi (Bichado) – direção Sérgio Audi

Onde: Teatro Coletivo – Rua da Consolação, 1623 – telefone 11 3255 5922

 

Primeiras impressões: Estou estudando este texto de Plínio Marcos com a Daniela Flores. Esta é uma experiência nova para mim, estar na platéia de uma peça da qual conheço, em detalhes, as falas dos personagens. Era o último dia da temporada. Cheguei uma hora antes, só para garantir. Fui vasculhar o teatro antes. Eu tinha tempo. Não encontrei os ingredientes que esperava no palco. Onde estava a pilha de papel que Coco levaria Gá? Para que serviriam aquelas gavetas? Não lembrava de gavetas e mesas nas cenas. O palco era tradicional, com platéia subindo degraus de um lado e o palco do outro, exceto pelo fato que entrávamos pelo canto do palco.

O terceiro da fila: Preciso sentar num bom lugar. Fico antenado e me coloco à frente na fila. Sou o terceiro a entrar. Um casal de rapazes entra à minha frente. Entramos pela lateral do palco. Os rapazes passam reto e não vão em direção às cadeiras. Eu vou, afinal, quero sentar bem na primeira fila. Mas eles param e me chamam. Eu estava errado, não era aquele o palco. Ah, bom, aquelas gavetas não faziam sentido...

Submundo: O tema de Homens de Papel é o submundo dos catadores de papel e coerentemente somos direcionados para o porão. Um porão amplo, com paredes, pilares e pisos descascados. Não fosse pela forte iluminação, teríamos a certeza de estar entrando em algum prédio abandonado do Centrão de São Paulo.

Eles estão entre nós: os atores já estão ali. Não há cochia. Eles nos indicam onde podemos sentar. Não há uma primeira fila. Há 4 primeiras filas. O porão todo é o palco. O centro do palco é o centro do porão. As arquibancadas ficam opostas umas às outras em como nas pontas de um X. Como escolher o local ideal? Para que lado os atores ficarão virados na maior parte do tempo? É, neste caso, um pouco mais alto parece melhor. Sento na terceira fileira.

Texto duro: Quando trabalhamos com números em planilhas Excel, números duros são aqueles que não vêm de fórmula. Eles são os martelados, os colocados na marra, impostos. E assim estava o texto na boca dos atores: exatamente como no texto de Plínio Marcos. Impressionante a capacidade destes atores de fazer parecer suas, as palavras de outro.

Texto difícil: O linguajar é difícil. São gírias que não são nem de nosso tempo, nem de nosso meio. São catadores de papel das épocas dos Réis e vinténs. E mesmo assim os atores trazem estes personagens à vida, dura vida.

Atuação crua: o texto de Plínio Marcos não é uma comédia. É a realidade nua e crua. A peça inteira é um soco no estômago, do início ao fim. Não se usa de sarcasmo, ironia, ou caricaturices. O clima é tenso. Há muita discussão, muita briga. É a luta pela sobrevivência, no limite animal do homem. Há morte, sexo e disputas por dinheiro e poder.

Iluminação: praticamente inexistente. Palco e platéia dividiam o mesmo espaço, ficando tudo sempre às claras. No máximo houve uma diferença de intensidade de luz para demonstrar uma noite ou para puxar a atenção para um dos lados. A ausência de efeitos de iluminação e de cena está coerente com o texto, duro, realista.

Destaques: Angelina Ribeiro (Nhanha) trouxe para vida uma mulher sofrida, firme e determinada. Fernanda Assef (Gá, a criança deficiente mental) emocionou. Thiago Barros (Chicão) caprichou tanto no visual que está vivendo este personagem até fora dos palcos e incorporou trejeitos, caras e bocas muito convincentes ao personagem.

Adaptação: Falando em Réis e vinténs, não poderia haver um catador de papel fumador de crack. Mas houve, e ficou bem. Deu mais um ponto de intensidade a esta história já intensa. A cena em que Coco cerca e bolina Gá, e na qual ela acaba morrendo e a subseqüente morte de Coco pelas mãos de seus companheiros ficou mais fluida do que o texto original.

Meus pensamentos secretos: Estamos estudando este texto. Precisaremos representá-lo. Ver a peça seria ótimo para ter um parâmetro. Que desespero. Que texto difícil de representar. Quando falamos que alguém é teatral, é porque é uma pessoa exagerada, caricata. Neste caso o texto não comporta teatralidades, caricaturices. É um texto duro de representar. Como fazer?

Posted via email from exploranter's posterous

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