14 June, 2009

Impressões - Peça Teatral - Bem aventurados os anjos que dormem

Peça: Bem aventurados os anjos que dormem – 60 minutos

 

De: Marília Toledo – Direção Kleber Montanheiro

 

Com: Cris Rocha, Daniela Flor, Ariel Moshe, Carlos Dias, Márcio Dias.

 

 

Personagens: Dr. Stein, que é um cientista; Hanna, sua secretária; O reflexo do Dr. Stein no espelho; O filho médico do Dr. Stein com Hanna; O paciente do filho do Dr. Stein; A mulher do paciente, que depois se tornaria a mulher do filho do Dr. Stein, o turista Italiano, o neto do Dr. Stein; 

 

 

Primeira impressão: o teatro é estreito e comprido. Entro e caminho no térreo entre mesas e banquetas nas laterais. Há holofotes no teto. Poderia ser ali mesmo a encenação? Perguntei. Não. Seria no andar superior. Estou adiantado. Vou tomar uma cerveja enquanto espero a hora. Onde estive que nunca freqüentei esta praça? A praça é suspeita, mas a calçada dos bares e teatros é bem movimentada e iluminada. Parece seguro. Quero voltar mais vezes.

 

Primeira campainha: um gong, na verdade, batido ao vivo, no meio de nós no térreo.

 

Segunda campainha: abre-se uma cortina lateral. Há uma escada quase muito inclinada. Um ator nos espera no topo. Há decoração. Velas. Flores. Já começou. Já faz parte. Não vou simplesmente escolher uma cadeira e esperar o show começar. O ator se aproxima e cochicha ao pé do ouvido: durma o sonho dos anjos. Termino de subir o último lance de escadas. Um personagem suspeito me avalia. Usa óculos e tem as pálpebras caídas. A direita mais caída. Ele é alto e usa um blazer claro. Logo uma personagem me oferece chá. Aceito. Ainda estou caminhando, mas agora já percebo o palco. Estamos cruzando o palco. A platéia ficará lá, do outro lado. Sento-me, como de hábito, na primeira fileira. O chá aquece minha mão. Cheira bem. Escurece. Luzes. Um sotaque alemão. É o Dr. Albert Stein. Ele está sobre um tablado quadrado de aproximadamente 3X3 metros. Este tablado é o palco principal. Mas atrás dele, até o fundo de onde viemos ainda é palco. Aliás, como só descobriremos na cena final (ou como se chama algo que não vemos, só imaginamos?), o palco continua até depois de seu próprio fim.

 

Palco: O tablado girava. E isto mudava o cômodo, a situação na qual acontecia a cena. O tablado girava sobre rodas que podiam ser travadas. Ao vivo. A 3 metros de mim. Toda a parte funda do palco, aquela fora do tablado, acontecia ao sabor da iluminação. A iluminação deu ênfase num marido entrevado numa cadeira de rodas logo após o tablado e também mostrou o ser que habitava dentro do espelho. Os atores não saíam de cena. Sentavam nas cadeiras ao fundo, por vezes banhados pela luz, por outras não.

 

Cronologia: era reversa. Ia e voltava. Foi a história de 3 gerações, de avô a neto, de 1913 a 1975. As datas eram escritas a giz em placas na parede antes do início de cada série de cenas. Quando voltávamos a uma data, bastava sublinhar a data escrita anteriormente.

 

Representação: é por isto que teatro é teatro – porque é teatral! A primeira cena deu o tom. Hanna é totalmente caricata, Dr. Stein idem. As faces de Hanna são muito claras. Não há dúvidas quanto ao que sente. O Dr. Stein em determinado momento conversou com seu reflexo ao telefone. Poderia jurar-se que ali estavam dois atores. Como sempre me impressiona, e talvez sempre continue a me impressionar, como é possível decorar tantas falas, tantos diálogos, tantos gestos, todos pensados, nada deixado ao acaso? Do ator mais jovem, representando o filho do Dr. Stein, perceberam-se duas ou três sílabas trocadas. Ainda bem! Eles são humanos. Já começava a duvidar da humanidade por trás de atores de teatro. E isto é o encanto do teatro. É real. É ali. É humano.

 

Apesar das idas e vindas na cronologia, a história bem amarrada e as placas na parede indicando a data nos conduziram muito bem. Claro, não dava para se distrair. A trama era complexa.

 

Trama (ou Spoiler – não leia se não quiser saber o final da história): Cientista Albert Stein consegue dar vida ao seu reflexo no espelho, que foge e leva vida independente. Como reflexo que é, leva uma vida ao contrário, às avessas, a começar por seduzir Hanna, sua secretária recatada e de longa data. Desta relação nasce um filho, que eventualmente vira médico. Este médico tem um paciente, que tem uma esposa a quem subjuga. O médico e a esposa se enfatuam e planejam o fim do paciente/marido. Morte lenta e cruel passa por período de invalidez. Médico e viúva têm filho, que morre ainda novo. O Médico e sua mãe, Hanna, ex-secretária e ex-esposa do Dr. Stein possuem uma pousada. Após a morte do filho do Dr. Stein, mais de 60 anos depois de iniciada a trama, há a leitura de uma carta-testamento. Na carta é revelada o segredo de Hanna e de seu filho médico para sua viúva. A pousada era de fachada, e servia na verdade para atrair turistas e mumificá-los, na esperança de através de DNA trazer de volta à vida o Dr. Stein, amado marido de Hanna e pai de seu filho. E a viúva ainda escuta que seu filho, o neto do Dr. Stein, não estava morto. Estava vivo e que ela deveria vê-lo na antiga pousada. Fruto de experimentos de seu marido médico, o filho havia se tornado um monstro.  A viúva, sua mãe vai vê-lo e.... grito!!! Escuro. Silêncio. Palmas de metade da platéia. Acabou? Continua escuro. Luzes. Aí estão os atores. Sim. Havia acabado. Agora sim palmas de toda a platéia. E mais palmas, agora de pé.

Posted via email from exploranter's posterous

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