14 June, 2009

Impressões - Texto - Máquinas de Voar, de Arlindo Machado

(Texto escrito em conjunto com minha irmã, Marília, que estuda Propaganda e Marketing)

O texto Máquinas de Vigiar tem impacto em minhas perspectivas criativas, profissionais e pessoais. Sobre boa parte dele eu já tinha consciência e num outro tanto o texto trouxe mais ingredientes para minha reflexão.

Na esfera privada das pessoas, que será objeto da minha atuação profissional no futuro, o panóptico age em dois extremos: a esquizofrenia para os alertas e a exposição desmedida e exagerada para os não alertas. Na categoria dos não alertas estão todos os muito jovens, nativos digitais, que desprovidos de malícia e totalmente à vontade com as ferramentas de mídias sociais iniciam sua exposição muito cedo sem fazer idéia do impacto que tamanha transparência pode ter em suas vidas. Já no extremo da esquizofrenia temos aqueles que abandonam sua naturalidade e percebem cada câmera oculta em cada ambiente que freqüentam. Como comunicadora tenho que entender a interação entre hardwares, softwares e indivíduos neste universo panóptico. Tenho que saber fazer uso das informações que terei acesso graças à exposição voluntária das pessoas, assim como saber utilizar estes mesmos canais, em direção inversa, para atingir o meu público com a minha mensagem.

No extremo da esquizofrenia também trabalharei com o sadismo, representado pelo prazer mórbido que as pessoas têm de assistir reality shows. Como citado no New York Times,    “This show is all about manipulating the eagerness for celebrity among vulnerable, often desperate people,” David Wilson, a professor at Birmingham City University who briefly worked as a psychologist on “Big Brother” several years ago, wrote in The Daily Mail. “The more tears, humiliation, conflict and embarrassment, the more the public loves it.”[1]

Como comunicadora tenho que entender a psique humana em função da “reversibilidade do olhar” [2] representada pelos opostos voyeurismo X exibicionismo. Ciente desta mazela humana, ao criar e elaborar peças de comunicação terei que imaginar os caminhos que fazem a comunicação permear pela sociedade e de que forma estas peças de comunicação são percebidas e absorvidas por este público, ora exibicionista, ora voyeur. 

Invadidos, expostos, escarafunchados todos somos, da casca às entranhas. Aparelhos de ressonância magnética e endoscópios trazem imagens de nosso interior, nos antecipando o sexo dos filhos, e com o seqüenciamento genético, fazendo previsões de nosso futuro, ou pelo menos de nossas potencialidades futuras. Isto nos remete ao filme Minority Report [3], na qual existe um órgão governamental chamado precrime unit, que prende criminosos preventivamente, na expectativa de crime futuro.

Embalado pelos pensamentos deste filme e mudando de perspectiva, de Estado observador e coercitivo, para observado paranóico, temos uma sensação de vigilância permanente, que num extremo levaria a uma coerção permanente.

A sensação de coerção permanente é exponencializada por uma sensação de punibilidade. A sensação de que estamos sendo vigiados e que seremos denunciados tem efeitos práticos em nossas vidas. Digo que não há povos melhores ou povos piores, há povos mais bem vigiados e menos vigiados. O Brasil se encaixa em menos vigiados. Aqui, apesar da presença de câmeras de vigilância em todos os cantos, pela sensação de impunidade, sentimos que não há total eficácia desta vigilância eletrônica. A vigilância que de fato é descontínua[4], por nós Brasileiros é mesmo sentida como descontínua, livrando-nos, por enquanto, da paranóia da sensação da vigilância permanente. Ainda vemos como anedota, casos de pessoas que sofreram algum tipo de punição baseada na exposição de sua vida particular em mídias sociais[5].

Na minha vida profissional posso ser vítima desta máquina anônima de vigilância, que despersonaliza o poder. No século passado, princípios de produtividade e controle eram personalíssimos, com a figura do chefe, do supervisor, fisicamente presente no ambiente de trabalho. Hoje, com possibilidades de trabalho remoto, aliadas à crescente acessibilidade a tecnologias que tornam a tela dos monitores de TVs e laptops como canais de mão dupla, o volume, qualidade e escala de minha produção poderão ser monitorados à distância.

Como em qualquer evolução, há momentos de início, ruptura e sedimentação. Num primeiro momento, que é o agora, estamos sendo invadidos sem perceber, sem nos darmos conta. Num segundo momento, quando nos dermos conta, possivelmente nos revoltaremos e gritaremos. Será a ruptura. Mas com o tempo, nos acostumaremos. E quando nos acostumarmos, estaremos vivendo num outro Zeitgeist [6], num outro espírito de época, numa época em que acharemos estranho que tudo não fosse transparente, vigiado, vigiável, com dados em tempo real.

Peças de ficção como 1984, de George Orwell ou Sliver - Invasão de Privacidade, com Sharon Stone parecem naïve, perto do que as tecnologias atuais nos permitem. O arsenal Google está hoje à disposição de qualquer um, que com suas ferramentas Maps, Street View, Earth, Latitude e Googleme, permitem uma invasão nas vidas e propriedades alheias. Quando subimos um pouco mais em budget e limitação de acesso público, temos ferramentas militares que do espaço sabem reconhecer pessoas em trajes civis ou militares e até placas de carro. Se nossas câmeras de fotografia digital caseiras já conseguem reconhecer um sorriso para aí então disparar o obturador, imagine a capacidade de máquinas de bilhões de dólares. O fato é que não temos como fugir. Vítima, objeto ou sujeito, o melhor que temos a fazer é entender o funcionamento desta máquina e usá-la a nosso proveito.



[1] http://tinyurl.com/realpsik – último parágrafo

[2] Freud (1972: 11-44); Merleau-Ponty (1971: 235-37); Lacan (1975: 90-115); Máquinas de Vigiar, Arlindo Machado, pg. 229

[4] Máquinas de Vigiar, Arlindo Machado, pg. 224

Posted via email from exploranter's posterous

0 Comments:

Post a Comment

<< Home