Relatório - Peça Teatral - Os Figurantes
Peça: Os Figurantes
Ficha Técnica
Direção Artística: Cacá Carvalho
Elenco: Daniel Ribeiro, Joana Levi, Juliana Grave, Laila Garin, Leonardo Ventura, Marcelo Valente e Raquel Tamaio
Produção Executiva: Pedro de Freitas/Périplo Produções Culturais
Dramaturgia: Cláudia Barral e Elenco
Coordenação de Produção: Carla Pollastrelli
Colaboração Artística: Roberto Bacci
Local: Casa Laboratório para as Artes do Teatro - R. Cons. Brotero, 182 - Barra Funda - Oeste. Telefone: 3661-0068. Ingresso: R$ 20.
Horários: quinta a sábado: 21h. - domingo: 19h.
Sinopse: Personagens urbanos tentam ser protagonistas de suas vidas, mas continuam figurantes.
Espaço:
Na Barra Funda, bairro onde outros 5 ou 6 grupos de teatro mantém suas sedes, ocupa o espaço de uma casa geminada estreita. Na entrada o guichê e simpáticos sofás. Passada a porta de acesso ao interior do espaço de espetáculos, amplos degraus ao lado direito formam a platéia, à frente o espaço cênico direto no piso, não elevado. Ao fundo janelas de vidro, tipo persiana, pintadas para não serem translúcidas (foram interessantemente abertas durante a peça, mostrando um espaço preenchido por uma luz vermelha, mostrando a capacidade de ampliação de espaço cênico e sensorial do grupo.)
Recepção:
O próprio Cacá Carvalho nos recebe. Fecha a porta de ferro que dá para a rua, transformando a ante-sala em espaço pré-cênico/tribuna/palanque político. Dá as boas-vindas, agradece a presença e inicia uma série de agradecimentos/críticas ao sistema, que para o não iniciado podem parecer linguagem hermética. No fundo, tudo muito pessoal, de coração, humano.
Pontos Altos:
- Espaço cênico sem coxias, trabalhado pelos próprios atores, transforma-se organicamente, com ótima exploração dos planos baixo, médio e alto, inclusive com perspectivas que fogem ao horizontal.
- Sonoplastia + voz dos atores em uníssono remetem nitidamente ao caos urbano. Jura-se estar numa esquina barulhenta da metrópole.
Iluminação:
Bem utilizada, mas básica. Fora um momento em que o único ponto de luz foi um aquário (com um Peixe Dourado dentro) pendurado e iluminado por dentro, as demais tomadas de luz seguiram um padrão ortodoxo, sem experimentações.
Som:
Bom conjunto de música e sonoplastia. Pela reação do público, tocar Amy Winehouse num determinado da peça foi bem acertado. O público embarcou na emoção da cena.
Atores:
Destaque para o ator magro, de barba, que emprestou sua imagem e voz com maestria para o personagem.
Também destaque para a atriz que num piscar de olhos trocava de personagem, com um simples movimentar de tecidos, que fazia aparecer em cena um bebê, numa fração de segundos, transformando seu xale num embrulhinho de colo enquanto girava o corpo.
Um ator ainda estava mais no texto do que na relação. O seu personagem queria comprar uma moto.
Realçados estes destaques, os outros atores desempenhavam muito bem seus papéis. Foi marcante a forma como os atores tinham uma noção de espaço, uns dos outros e de timing. Uma peça de intensa movimentação, de atores e de elementos de palco, ocorreu em sincronia.
Com raríssimos momentos de pausa preenchida, as falas eram por vezes encavaladas, outras vezes concomitantes. Impressionou também neste quesito a capacidade dos atores de manter-se em seus textos, mantendo aberta a percepção para o movimento dos outros atores, que acontecia de forma caótica, com todos falando em voz alta ao mesmo tempo. Um dos pontos altos da peça aconteceu numa situação destas, na qual se poderia jurar estar em meio ao caos da metrópole.
Roteiro:
Numa proposta arrojada de cada ator trazer seus textos e em conjunto os descontextualizar, exageraram. Faltou uma linha condutora, por mais que esta fosse a proposta...
Minha percepção:
Divido a minha percepção em duas partes: a análise das partes e do todo. Na análise das partes, gostei, até por ser o resultado de um galpão de laboratório de teatro, que em sua essência busca testar linguagens e formatos. Tiveram muito sucesso nisto, em oferecer diferentes perspectivas, ligando trabalho corporal, trabalho de palco e linguagem. No todo não gostei, porque a linha de ligação ficou faltando. O roteiro faltou.
O tema tão importante e interessante como este, ficou solto, numa série de pensamentos correlatos, mas desconexos. Busquei uma linha de história, mas não encontrei.
Apesar de ser esta a proposta, de descontextualizar as cenas, de todos os experimentos, este foi o que não me agradou. Isto é uma condição bem pessoal minha. Adoro cronologias reversas, histórias complicadas, daquelas que cada segundo conta e nenhuma cena pode ser desconsiderada. Não foi o caso. Pena. Mas num ambiente de experimentação, nem sempre se agradará a todos e o mérito deve ser dado aos que tentam, mais do que aos que se agarram à tabula rasa da não criatividade.

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